As doenças relacionadas ao trabalho já não passam mais exclusivamente pelas lesões por esforços repetitivos ou distúrbios osteomusculares. Hoje as doenças ocupacionais estão relacionadas também aos problemas psicológicos. A Justiça do Trabalho no município não possui números referentes ao crescimento deste tipo de caso. No entanto, as ações vêm crescendo em ritmo acelerado na cidade, segundo a titular da 3ª Vara do Trabalho em Juiz de Fora, Martha Halfeld Furtado de Mendonça Schmidt, que também é autora de um livro referência na área, “O assédio moral no direito do trabalho”. João Fernando Lourenço, advogado trabalhista de quatro sindicatos locais e professor de direito do trabalho, aponta que o ápice das denúncias vem ocorrendo nos últimos dois anos. “Não temos como precisar o crescimento, mas é muito grande.”
Um dos indicadores que pode ser usado para medir parte dessas ocorrências é a disparada da concessão de auxílios-doença acidentários, pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no município. Desde 2004, conforme dados da Gerência Executiva do INSS em Juiz de Fora, os benefícios passaram de 221 para 1.466, até 2009, o que representa um crescimento de 563%. Esta é a modalidade mais frequente nos casos em que funcionários desenvolvem quadros de depressão e outras doenças mentais relacionadas ao trabalho.
Conforme o vice-presidente do Sindicato dos Comerciários, Wagner França, são frequentes as denúncias na entidade de funcionários alvos de xingamentos e humilhações constantes. “Quando as pessoas vêm até nós, a situação já está insustentável. Há casos em que os patrões atrasam os salários de propósito e costumam usar o argumento: ‘não querem o emprego? Aí fora tem muita gente querendo sua vaga’, na tentativa de mostrar quem manda.” Ainda de acordo com França, alguns ameaçam dar a futuros patrões referências ruins. “O maior problema é conseguir provas, pois os colegas temem perder os empregos.”
É o caso da bancária Fernanda. Ela contou que, há três anos, começou a notar, em meio à rotina de trabalho e cumprimento de metas, que o comportamento de seu superior direto em relação a ela estava diferente.”Críticas à minha produção, em particular, eram frequentes, e até minha mesa chegou a ser retirada em um determinado momento. Cheguei ao trabalho e vi que não tinha mais lugar para ficar”, disse. O ápice, de acordo com a bancária, foi ouvir pelos corredores da instituição que ela era “uma laranja podre, que deveria ser retirada do cesto”. A perseguição, que teria perdurado por cerca de dois anos, fez com que Fernanda entrasse em um quadro grave de depressão, precisando, inclusive, de afastamento pelo INSS por cinco meses. “Não conseguia trabalhar. Chegava em casa e só chorava. Eu não conseguia entender como um simples trabalho estava destruindo a minha vida.” Hoje, segundo ela, a volta só foi possível devido ao acompanhamento de psiquiatra e psicólogo, além de remédios controlados.
Já a comerciante Ana Paula pediu demissão do trabalho, após seis meses, logo depois de iniciar também quadro de depressão, por causa da conduta do chefe. “Ele me chamava de burra e incompetente até na frente dos clientes. Ainda me mandava limpar toda a loja.” Em seu primeiro emprego, aos 19 anos, Ana Paula não sabia o que fazer. “Tinha medo que ao sair ele começasse a dar indicações negativas sobre meu trabalho e achava que não ia conseguir emprego em nenhum lugar. Até os clientes me chamavam no canto e falavam que poderiam testemunhar em meu favor na Justiça, mas tinha muito receio.” Hoje, a comerciante já trabalha em outro estabelecimento, mas disse que ainda não se recuperou do que sofreu no primeiro. “Não consigo passar em frente à loja e sempre atravesso a rua para evitar ver alguém. Tenho um sentimento muito ruim quando me lembro daquela época. É uma coisa que me faz mal até hoje.
Cobrança por metas potencializa situação
No Departamento de Saúde do Trabalhador (DSAT), a diretora administrativa, Ivone Garcia da Silva, revelou receber, no mínimo, uma denúncia de assédio moral por dia. A falta de psiquiatra na unidade, no entanto, impede que a instituição saiba o número de juizforanos afetados. “Não estamos conseguindo fazer o nexo causal, pois estamos sem o médico. Mas muitas pessoas chegam até nós com esse quadro de sofrimento mental, típico das vítimas de assédio moral.” De acordo com a secretária de saúde do Sindicato dos Bancários de Juiz de Fora, Cristina Moysés, “a cobrança por metas, cada vez mais difíceis de atingir, tem potencializado a situação, além da perseguição a funcionários”.
O metalúrgico Roberto começou a perceber a perseguição a ele desde quando entrou no movimento sindical e passou a atuar como testemunha de outros trabalhadores que procuravam a Justiça diante de irregularidades nos contratos fechados com a empresa onde trabalhava. “Chamavam todos para reuniões e me excluíam. Cheguei a ouvir que não era para me deixar sozinho na fábrica, pois eu poderia sabotar equipamentos.” Sua esposa, que trabalhava na mesma empresa, foi dispensada em dezembro de 2008. Em seguida, ele também foi demitido. Procurou a Justiça e ganhou em primeira instância, mas a empresa recorreu e o processo está no Tribunal Superior do Trabalho (TST).
Diante do crescimento dessas situações, um projeto de lei (n.º 7.202/2010), em tramitação na Câmara dos Deputados, pretende incluir o assédio moral como acidente de trabalho. Os autores Ricardo Berzoini (PT-SP), Pepe Vargas (PT-RS), Jô Moraes (PC do B-MG), Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) e Roberto Santiago (PV-SP) justificam a iniciativa alegando que a ofensa moral vem sendo reconhecida como fator de risco nos ambientes de trabalho. Eles apontam que o texto atual da Lei nº 8.213/1991, estabelece apenas o pré-requisito de equiparar ao acidente de trabalho a ofensa física intencional, inclusive de terceiro, somente quando o motivo de disputa seja relacionada ao trabalho. “O objetivo é estender o conceito de outras situações equiparadas ao acidente de trabalho”, de acordo com a justificativa do projeto.
Confira
O que é assédio moral?
- Trata-se da exposição de trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, de forma reiterada e prolongada, de forma intencional, durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções. A prática é mais mais comum em relações hierárquicas autoritárias, com predomínio de condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinados.
- A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares.
- Nessas relações ficam evidentes ações como:
- Intencionalidade (no sentido de forçar o outro a abrir mão do emprego)
- Direcionalidade (quando uma pessoa do grupo é escolhida como bode expiatório)
- Temporalidade (durante a jornada, de forma repetitiva)
- Degradação deliberada das condições de trabalho (provocando até o adoecimento da vítima)
Comportamento do autor
- O assediador caracteriza-se pela agressividade. Mas também pode adotar atitudes menos explícitas de assédio: desprezo, ironia, superioridade. Um exemplo disso são as demonstrações de “quem é que manda”, “quem tem o poder” como, por exemplo, questionamentos constrangedores, sempre diante de “testemunhas”. As principais ameaças são relativas a:
- Horários ou prazos
- Ameaça de cortes no salário
- Ameaça de demissão
Reflexo nas vítimas
- As vítimas, em geral, apresentam sintomas como: depressão, crises de choro, dores generalizadas, palpitações e tremores, insônia ou sonolência excessiva, diminuição da libido, aumento da pressão arterial, tonturas, ideia de suicídio, falta de apetite, falta de ar.
Fontes: assediomoral.org e Martha Halfeld Furtado de Mendonça Schmidt, juíza titular da 3º Vara do Trabalho de Juiz de Fora
Provas são entrave em processo
Para o advogado trabalhista João Fernando Lourenço, a dificuldade de conseguir provas é o principal entrave das vítimas de assédio moral ao acionar a Justiça. “Isso muitas vezes prejudica o processo, pois em alguns casos só ele presencia as ações, sem testemunhas”.
O vice-presidente do Sindicato dos Comerciários, Wagner França, aponta que são frequentes as denúncias na entidade de funcionários alvos de xingamentos e humilhações constantes. “Quando as pessoas vêm até nós, a situação já está insustentável. Há casos em que os patrões atrasam os salários de propósito e costumam usar o argumento: ‘não querem o emprego? Aí fora tem muita gente querendo sua vaga’, na tentativa de mostrar quem manda.” Ainda segundo França, alguns ameaçam dar a futuros patrões referências ruins. Mas a maior dificuldade, segundo ele, é conseguir provas. “Muitos colegas ainda estão trabalhando nos locais e temem ser demitidos. Infelizmente não temos como garantir o emprego dessas pessoas.”
Para a juíza titular da 3ª Vara do Trabalho em Juiz de Fora, Martha Halfeld, as provas podem ser por e-mail ou testemunhais. Gravações também podem ser utilizadas. Mas a magistrada chama a atenção para a necessidade de uma prática de agressão verbal reiterada para a caracterização do assédio moral. “O assédio é sempre intencional e acontece repetidas vezes. Nem todos os casos são reconhecidos como assédio moral. Conflitos no ambiente de trabalho sempre irão existir. Há casos de pessoas fragilizadas por questões pessoais que, às vezes, transferem esses problemas para o trabalho. É preciso muita cautela, para que não haja abuso.”
Alternativas
A juíza recomenda ainda outras formas para solucionar o problema antes de entrar na Justiça, como acionar os sindicatos das categorias e a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), no caso de empresas de maior porte. “Se não houver uma solução amigável, a pessoa deve procurar a esfera judicial.” João Lourenço também chama a atenção para a ação de pessoas oportunistas. “Há casos de trabalhadores que tentam ‘forçar a barra’, mas é necessário muito cuidado para não transformar a situação em indústria.” Na Gerência Regional do Trabalho e Emprego em Juiz de Fora, a titular, Nila Magalhães, diz que as denúncias não são frequentes. “São casos em que a fiscalização é difícil, pois o patrão não irá praticar esses atos na frente de nossos fiscais”, observa. No entanto, segundo Nila, há muitas conciliações entre as partes na entidade.
Os nomes das vitimas de assédio citadas nesta reportagem foram trocados a pedido dos entrevistados
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